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Os benefícios do origami ensinados por Keiko Abe
Texto: Elaine Hipólito

A tradicional arte das dobraduras rendeu bons frutos para a filha de imigrantes japoneses que com 70 anos tem uma lição de vida para contar.

Simples passatempo ou poderoso recurso pedagógico e educacional, o origami ou dobradura de papel – como pode ser traduzido – surpreende por revelar sempre uma função a mais.  Que o diga a mestra Keiko Abe, que hoje dedica seu tempo a essa arte milenar. Em contrapartida, tem uma rica e longa história para contar.












Nascida em Paraguaçu Paulista e filha de pais japoneses, passou a infância “na roça”. Plantou café e algodão. Aos quatro anos mudou com a família  para  São Paulo, onde o pai abriu um armazém de secos e molhados. O negócio não deu lá muito certo. Não demorou muito e estavam de malas prontas rumo à  lavoura. Desta vez, o município escolhido foi o de Campos do Jordão para cultivar cenouras.

Segundo conta, a vida era bem sofrida naquela época. “Alternava o horário da escola com o do trabalho. Fazia a lição de casa só depois do jantar”, relembra. Comprar brinquedos? Nem pensar. “Minha mãe me ensinava a fazer aviãozinho, barquinho, passarinho...Tudo de papel”, diz. Era o início de uma duradoura e prazerosa relação com o origami.

Apesar de toda uma vida dedicada ao cultivo da terra, aos 19 anos, conseguiu formar-se professora. A rotina era conhecida. Num período ensinava na escola rural, no outro ajudava os pais no plantio de tomates e de batatas. Aos 22 anos, a pedido dos pais, veio a São Paulo continuar os estudos.

Trabalhou em multinacional e foi funcionária pública para custear as faculdades de Biblioteconomia e de Tradução e Intérprete, ambas concluídas. “Direito eu não terminei, não”, justifica. Por ter o tempo completamente preenchido com o trabalho e os estudos, durante décadas as dobraduras de papel ficaram adormecidas.

Somente em 1990, quando Keiko estava praticamente aposentada, o origami voltou a  ganhar força em sua vida. “Queria me especializar no assunto”. Foi então, que procurou a Aliança Cultural Brasil – Japão e teve aulas com os professores Mari Kanegae e  Paulo Imamura.
“Meu objetivo era aprender a tirar dos livros a maneira certa de dobrar. Trata-se de uma linguagem universal e própria das dobraduras de papel”, esclarece.

Em 91, já aposentada foi para o Japão procurar novos cursos. Um de seu interesse foi o wrapping (arte de embrulhar presentes). Outros dois foram: origami e secagem de flores. Quando voltou para o Brasil foi convidada a lecionar na própria Aliança Cultural Brasil – Japão. “Por conta das aulas, viajei por várias cidades do interior de São Paulo e outras tantas por outros estados do país”, diz satisfeita.

Na verdade, a arte de dobrar papel para formar figuras é um capítulo de  destaque na vida de Keiko. O origami foi responsável, inclusive, por ilustrar livros e revistas, e compor exposições. Uma delas é A História da Imigração Japonesa no Brasil, que aconteceu no Museu da Imagem e do Som – MIS, em 1995.

“Sou integrante do GEO – Grupo de Estudos de Origami de São Paulo, coordenado por Mari Kanegae. Para aquela ocasião, fizemos os origamis inspirados em fotos da época da imigração japonesa”, esclarece. Da exposição direto para as páginas do livro bilingüe (português – japonês) com o mesmo nome.

Por conta desses acontecimentos, Keiko teve contato com a  Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades – SUTACO e pôde se cadastrar como artesã. Surgem, então, mais exposições como as de presépio organizadas pela própria autarquia e outras internacionais.


Engana-se quem pensa que isso é tudo. O trabalho de Keiko também foi capa da revista Kalunga, além de servir como prática disciplinar para atender adolescentes carentes. No projeto Dança Comunidade, dirigido pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo, Keiko ensinava origami como recurso pedagógico.

“O corpo era trabalhado por ele, mas a concentração dos alunos era obtida com a prática das dobraduras”, explica. E daí, surge a oportunidade de editar mais um livro.  O nome? Aprenda a fazer origami passo a passo, da Editora JBC – Japan Brazil Communication.

Aos 70 anos, mas com o vigor de uma adolescente, Keiko mostra que se depender dela, o origami ainda vai lhe render outros livros, exposições e sabe Deus as demais surpresas reservadas para o futuro.

Serviço

Keiko Abe: (11) 3078-6668
Aliança Cultural Brasil - Japão: (11) 3209-6630

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